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Foi nestas duas últimas semanas que a minha cadelinha adoeceu. Começou a coxear e pensei que tivesse torcido uma pata. A minha Misty era já velhinha quando a adotei. Conhecia-a no canil. Apática e triste, não comia e as senhoras do canil disseram-me que ela não tinha vontade de viver. Tinha 10 anos, dois sopros cardíacos, cataratas e uns quistos mamários que deveriam ser operados. Era um dia de sol de inverno e quando fomos as duas dar uma volta, dei-me logo conta da sua personalidade independente e contudo atenta: passeou comigo, cheirou todos os cheiros das ervas e das pedras do caminho e manteve-se sempre junto de mim, sem pedir festas e só resistindo a voltar para o canil.
Depois de ter sido operada duas vezes, a nossa relação fortaleceu-se enormemente. A Mimi era uma resistente, uma lutadora e recobrou sempre das intervenções cirúrgicas com coragem e tranquilidade. Sempre tive cães em casa dos meus pais, mas ela foi primeira cadela inteiramente da minha responsabilidade, muito embora o meu filho, que também lhe queria muito, me ajudasse. Aos poucos, a Nitinha tornou-se a minha sombra cá em casa. Dormia ao fundo da minha cama, e o suspiro largo com que sempre adormecia, depois de se aninhar sobre os meus pés, era para mim um sinal (e um conforto) da felicidade em que vivia connosco.
A tristeza que vivemos com a morte dos que amamos é uma aprendizagem que não nos é ensinada. O culto da (impossível) eterna juventude e o repúdio da doença e da velhice que sistematicamente nos são escondidas constituem uma grave ameaça à possiblidade de vivermos uma vida boa. Porque a morte é o que de mais inevitável existe na vida e, ao não nos prepararmos para a viver enquanto parte integrante da vida, condenamo-nos a uma existência pobre e fútil. Só a morte dá o verdadeiro valor à vida, dignificando-a e festejando-a nas suas infinitas possibilidades. Como no poema de Sophia de Mello:
Pudera eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes!
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.
Ó vida de mil faces transbordantes!
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.
Uma parte do meu coração foi com a minha Misty para o céu dos cães, onde, embora não acredite em Deus, sei que ela me guarda um lugarzinho onde me espera.
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Linda história! Triste, mas linda!
ResponderEliminarObrigada, qrda Ziula. Bj grande.
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