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terça-feira, 29 de outubro de 2013

Aprofundar uma opção de vida minimalista 2: preparar um salto em frente

Entre cuidar de quem precisa de mim e simultaneamante de mim própria, foi-me necessário inventar um equilíbrio que ainda estou a ensaiar. Como o tempo em que tenho de descansar fisicamente aumentou agora muitíssimo, preencho-o com a leitura, a escrita e a reflexão. Procuro ainda integrar neste tempo um tempo de meditação, uma prática yogui que  permite o descanso mental, racional e emocional. Com o devido treino e persistência, é-nos possível «entrar» numa espécie de «nada» que nos liga diretamente ao nosso eu interior. Não consigo explicá-lo melhor, mas a serenidade que advém desta prática é muitíssimo revigorante. Provavelmente insubstituível.

Tenho, assim, aproveitado para ler muito sobre as atitudes alternativas ao estado deste «nosso» mundo: das cidades em transição ou transition towns, às comunidades alternativas, do consumo consciente à opção por uma vida minimalista, simples e frugal, mais autêntica e eticamente exigente.

Penso que, em geral, a adesão mais impulsiva ao minimalismo tem origem numa tristeza tão profundamente enterrada dentro de nós próprios que dela não damos conta. Só nos apercebemos, e mal, de uma permanente insatisfação com a vida que vivemos, num espanto que cresce ao longo dos anos em que se vai tornando num gigantesco e evidente SIM em resposta à pergunta: «então viver é só isto»?

Contudo, a razão mais próxima é a vontade de redução de um consumo que nos sufoca porque nos rouba energia (dinheiro, tempo, vitalidade), na medida em é da sua natureza provocar-nos uma insatisfação permanente. Daí a vontade de controlar o nosso espaço vital, mais concretamente a nossa casa, o exemplo concreto da entropia que, ao invés de nos compensar e nos fortalecer, está sempre demasiado «entulhada» e desordenada, e a exigir cuidados e trabalhos, sempre repetidos e sempre sem fim. Todos os dias da vida.

A redução do consumo inconsciente por questões de endividamento, por vezes muitíssimo dolorosas, é outra das razões de adesão ao minimalismo, e pode ser ainda mais aliciante quando encontramos uma comunidade que nos assegura e comprova, por A + B, que «ter» não é «ser».

É neste contexto que «Um ano sem compras» se torna num desafio, num jogo até, tanto mais que, em princípio, nos traz só vantagens. O mesmo se passa com o destralhamento e a organização da casa: «três objetos por dia», meia hora de pomodoro, também outro desafio e outro jogo que eu aliás vivi com gosto. Sendo que ambos são por vezes também um pretexto para renovar o guarda roupa e para redecorar a casa! O que em si não deixa de ser importante. É de nós e do nosso espaço vital que aqui se trata, e não podemos gostar de nós da mesma maneira aos vinte, aos trinta, aos quarenta, aos cinquenta anos!

Todavia, para mim, o grande salto qualitativo vem depois destes projetos, ou seja, ultrapassados estes desafios e experiências, um ano depois, o que mudou efetivamente em nós e nas nossas vidas? O que queremos viver em termos de consumo, rotina, dádiva, participação na comunidade, serenidade, alegria de viver, sabedoria?
A partir de uma pesquisa no Google imagens sem possibilidade de identificação exacta.
Penso que este caminho, uma vez conscientemente iniciado, só pode ser depois para sempre. Sobretudo na minha idade, em que uma grande parte deste caminho já o tinha percorrido. Com hesitações, avanços e recuos, idas e vindas, com certeza. Se está tanto, quase tudo, em causa e por fazer nas nossas vidas e nas nossas comunidades...

Entre a adesão a uma vida frugal e a exigência de uma vida melhor, é aqui que estou agora.


terça-feira, 20 de agosto de 2013

Dia 323: E o (meu) ano sem compras?

E afinal, ao longo destes meses, como tem sido viver o meu ano em compras? A primeira expressão que me ocorre é que tem sido uma experiência extraordinária

Devo afirmar aqui que nunca fui uma pessoa superconsumista e que nunca contraí qualquer tipo de dívida por essa razão. Mas é verdade que, ao longo da vida, comprei muitas coisas de que depois me arrependi: ou porque não as utilizei, ou porque depois não gostei. Contudo, obrigar-me a pensar em consumir conscientemente e nas razões por que tenho ou não vontade de consumir, tem-me oferecido a possibilidade de me conhecer melhor e de conhecer melhor o mundo à minha volta.

Em primeiro lugar, ao longo deste ano, raramente senti vontade de comprar fosse o que fosse. Na verdade, não deixei nunca de sentir uma espécie de enjôo só de pensar em entrar numa loja, até mesmo no supermercado onde tenho de ir frequentemente.... 

Não sei bem a razão, mas passei a cozinhar com mais gosto e a comer  melhor. É verdade que não consegui acabar com os pequenos lanches em pastelarias, sobretudo por razões de trabalho, e comi algumas vezes em restaurantes em ocasiões comemorativas. Mas tenho sempre em casa diferentes porções de comida feita: pelo menos duas refeições de carne, e várias de arroz, pasta, couscous, legumes, feijão, grão, carne, ovos, lacticínios, muita fruta... E sinto-me feliz por me ter habituado muito depressa à minha pequena lancheira que uso todos os dias: com uma rápida volta pelo frigorífico, componho o almoço e o lanche que levo para o trabalho e esta opção diária faz-me sempre sentir bem.
 
Cozinhar, uma opção de cada vez mais portugueses.
Mas, na verdade, comprei alguma roupa, sim! Entre março e abril comprei dois tops de musseline, uma blusa elegante (que não fotografei aqui) e outra de meia estação, dois pares de calças pretas (tinha um único), e uns botins chiques em saldo.
 
Top 1.

Top 2.

Dois pares de calças pretas de meia estação.

Botins

A razão foi sobretudo profissional, já que estive em cerca de 15 representações oficiais onde também tive de falar para a televisão. Senti-me contudo interiormente dividida ao fazer estas compras: gostei dos conjuntos, mas os botins foram o exemplo típico de uma compra errada: são lindos (namorei-os durante mais de um ano), portugueses e estavam em saldo! Mas são desconfortáveis (embora ainda não tenha perdido a esperança de que, com o uso, o problema se resolva...), uma regra que há muitos anos eu não quebrava.

Constatei assim que no destralhamento feito no meu guarda-roupa acabara por guardar peças de que gosto mas que estavam na realidade bastante usadas. A maioria, sobretudo a de Verão, já não estava sequer em estado de a poder doar. Cortei algumas partes das peças para retalhos dos trabalhos de costura que gosto de fazer, e outros para panos de limpeza. 

Nas quase três semanas em que estive em Espanha, em trabalho, também não resisti às compras que todos os anos faço com um grupo de amigas, numa espécie de ritual de coqueteria: prendas entre 1 € e 1,5 € cada, nos montones do mercadillo municipal: três blusas de Verão, uma túnica e umas jeans (há cerca de cinco anos que não tinha um par). São peças que os feirantes compram ao quilo à porta das fábricas, ou em segunda mão.
 
1 €

1 €

1 €


1,5 €
1,5 €

Por estes pecadilhos disse às minhas amigas que teria de prolongar o meu ano sem compras. Primeiro pensei fazê-lo até ao Natal, mas depois acabei por concluir que vou fazê-lo daqui em diante, pelo menos por enquanto sem prazo marcado. Afinal, a minha atitude quase espontânea é já de grande alerta perante todo o tipo de consumo desnecessário!

Em contrapartida, dei um enorme passo em direção a uma vida mais minimalista: deixei de ir ao cabeleireiro! Quer dizer, a não ser para um corte de cabelo, que agora uso bastante mais curto, passei a tratar do cabelo em casa: descobri uma tinta que colora apenas os cabelos brancos e vai saindo com as lavagens. Para mim, funciona como umas luzes para os meus cabelos brancos que são relativamente poucos. Escolhi um louro escuro e a mistura com a minha cor dá-me um ar mais natural e mais leve. E, para secar, basta-me sacudir o cabelo, o que sempre me dá uma sensação meio infantil de alegria de viver! 

Dediquei-me também mais à minha casa: organizando-a de modo mais funcional e destralhando-a do que não faz falta. Nestas andanças, decidi aplicar as minhas poupanças dos dois últimos anos numa reforma da casa: pintura geral, tratamento de partes do soalho que estavam a precisar de reparação, nova instalação eléctrica e ar condicionado inverter. Esta última opção fi-la sobretudo pelo meu filho que sofre bastante com as oscilações térmicas (vivo num último andar) que ao longo do ano em Lisboa são significativas. Depois de estudar vários sistemas, acabei por concluir que fiz um bom investimento, já que os dois aparelhos por que optei são de classe AA e economizam energia, tanto no Verão como no Inverno.

Devo esclarecer que estas poupanças já estavam destinadas a serem aplicadas em melhorias na casa, mas eu não tinha decidido ainda era se as faria este ano ou no próximo. Acabei por me decidir por agora-já quando tomei outra opção: não ir de férias de Verão, como nos outros anos. Assim, este ano vamos apenas duas semanas para a casa de praia que uma tia avó do meu filho nos empresta. Fica muito perto de Lisboa pelo que, sempre que for necessário, venho a casa.

Para os que ainda estão indecisos em embarcar na aventura de um ano sem compras é bom lembrar que esta aposta também nos dá é uma maior sensação de segurança e de controle da nossa vida, de mistura com uma sensação de grande liberdade. Apesar dos pesares, este ano tem sido para mim muitíssimo compensador!

domingo, 17 de março de 2013

Dia 168: Aprender a vermo-nos «fora de nós»

Uma das consequências que o compromisso de viver «um ano sem compras» me tem revelado é a de permitir que comecemos a ver-nos de fora de nós próprios. Este exercício que a psicoterapia ou o yoga ou a meditação, entre diversas outras práticas, também ensinam é essencial ao crescimento interior.

Da psicologia há muito que sabemos que cada um de nós tem a sua própria perceção dos outros, do mesmo modo que todos temos uma imagem mais ou menos desviada da nós próprios, seja ela física, psicológica ou ambas. E em geral não coincidem. Achamo-nos quase sempre ou mais bonitos ou mais velhos ou mais gordos ou mais sedutores ou mais limitados do que na verdade somos. E isto longe dos casos patológicos em que a imagem real e a subjetiva se encontram completamente desajustadas (complexo de superioridade, anorexia...). 

Conhecermo-nos e à realidade em que vivemos.

Ao exercermos com regularidade esta prática de nos vermos na qualidade de espetadores de um filme no qual somos as personagens principais, vamo-nos progressivamente dando conta do que origina muito do que nos acontece e que sentimos no quotidiano. Para quem nunca o fez é uma revelação: em situações de tensão sobretudo, umas vezes somos nós próprios que inconscientemente provocamos o que nos sucede, outras vezes são, também mais ou menos inconscientemente, os outros quem despoleta em nós sentimentos os mais diversos: mágoas, revolta, alegria, comoções... antes inexplicáveis.
Como todas as práticas, é sempre mais difícil no início. Um psiquiatra explicou-me uma vez que numa conversa a dois, podem estar vários eus reunidos: eu, o outro, eu a observar o outro, o outro a observar-nos aos dois... Numa típica situação psicoterapeutica estão quase sempre três: o analista, o paciente e o analista observando os dois. Muitas vezes, quando a terapia é aprofundada, são pelo menos quatro os que se reúnem, já que o próprio paciente apreende esta mesma técnica e  consegue ver-se a si e ao outro em relação terapêutica e simultaneamente na relação pessoal.

Ver o que os outros não veem.
Tentar vermo-nos «de fora» ensina-nos muito sobre nós próprios, sobre os outros, sobre a influência que detemos na realidade em que vivemos e, evidentemente, sobre a nossa a qualidade de vida. Exige um grande autocontrole e, pelo menos de início, uma espécie de voto de silêncio ou, pelo menos, uma atitude de retirada face a intervenções ou respostas espontâneas e emotivas. Nestes casos, quando solicitados a intervir, devemos afirmar que gostaríamos de pensar melhor, dizer que ainda não refletimos sobre o assunto ou, no mínimo, pedir que nos repitam a pergunta.

Treinar quando estamos sozinhos é uma boa forma de nos iniciarmos nesta prática: imaginando-nos com uma câmara, a filmar o lugar onde estamos e nós nesse lugar. Ajuda também relatarmos essa situação em voz alta, na terceira pessoa, como alguém que conta uma história: 

«Quando entrei no apartamento percebi logo que ali viviam várias pessoas. Na cozinha, à direita do hall de entrada, estava uma cafeteira ao lume e havia várias canecas sobre a mesa, ao lado da janela. De um quarto ao fundo do corredor, chegava uma conversa em inglês, acompanhada de uma banda sonora. O cheiro a incenso vinha da sala, em frente à cozinha. Aí, sentada num cadeirão de «orelhas» e embrulhada numa manta, estava uma mulher com a cara escondida por uma franja inclinada sobre um pequeno notebook onde escrevia.»

Adotarmos esta terceira visão num contexto em que estamos sós, mas com outros - como quando estamos sozinhos num café ou na praia -, pode considerar-se talvez uma segunda etapa, na medida em que a tendência será a de observarmos os outros como sempre o fizemos, quando agora o que nos interessa é assumir um olhar o mais objetivo possível. Um olhar estrangeiro que tenta perceber por que razão sentimos empatia, indiferença ou repulsa pelos outros. Ao mesmo tempo que tentamos ainda vermo-nos através dos olhos dos outros: «o que pensará de mim aquele senhor a ler o jornal? E o casal com filhos pequenos? E a empregada que serve à mesa?».

Num grupo, seja no trabalho ou num acontecimento social, colocarmo-nos de fora é mais difícil porque estamos em relação com os outros, dentro de nós e fora de nós. Ou seja, somos três. De ínício, temos de ir saltando entre cada uma destas perspetivas, um pouco ao sabor do que formos capazes, mas com o treino, vamos conseguindo começar por rebobinar o filme do que vivemos em cada uma das três representações da realidade e, mais tarde, conciliá-las, fazendo o que os psicoterapeutas também designam como perlaboração (do francês, «trabalhar interiormente por si próprio»): processo pelo qual o psicanalisando integra uma interpretação e supera as resistências que ela suscita; elaboração interpretativa.

Ouvir atentamente os outros, prestando atenção às suas palavras, mas também à respetiva postura corporal constitui um treino complementar que naturalmente acabamos por dominar. Ajuda muito também solicitar a opinião de outros sobre uma determinada pessoa ou situação e de seguida propor-lhes uma apreciação contrária, um ponto de vista completamente diferente: questionar o que nos é dado como certo e o que consideramos como adquirido, e perguntarmo-nos por que temos ou consolidámos uma determinada convicção sobre alguém ou sobre um acontecimento.

Com esta prática, não apenas podemos tornar a nossa vida muito mais rica, como aprender a valorizar o melhor de nós. Acredito que possa parecer difícil, mas com o tempo torna-se numa atitude natural e depois é só continuarmos a ir por aí.
Aprender a viver o melhor de nós.
É por tudo isto que penso que o compromisso de «um ano sem compras» obriga muitos dos que o fazem a continuá-lo depois de uma forma alargada em direção ao nosso coração e a uma vida melhor, no sentido ético e global destes termos. Porque, quando iniciamos o processo de um crescimento interior consciente, é muito provável que este se torne num caminho irreversível.

Caminhar.



domingo, 30 de dezembro de 2012

Dia 91: 2012 em balanço

Na verdade o ano civil, pelo menos aqui no hemisfério norte, só em parte marca o nosso ritmo de vida. Desde jovem que o considero mais como a comemoração coletiva do aniversário do nosso planeta, embora saiba que se trata mais de um projeto de apenas alguns de nós, humanos. Mais prosaicamente, constitui também o marco do balanço financeiro anual das nossas vidas que o Ministério das Finanças nos solicita... obrigatoriamente. Tudo junto, a passagem de ano civil não é pois uma data de somenos importância nas nossas vidas. 

Contudo, muitas das nossas decisões de vida têm lugar no final das férias grandes do nosso verão, por volta de setembro, um tempo talvez mais apropriado para o fazer: o tempo do calor e do descanso está a terminar, sentimo-nos repousados e temos todo um novo ano de trabalho pela frente. Seja como for, em setembro ou em dezembro, ou ainda em março quando entregamos a declaração do IRS, estas datas levam-nos a realizar balanços anuais e intercalares que considero muito úteis.

Imagem retirada daqui.
Neste ano que passou, tomei resoluções importantes, a principal das quais foi a de apostar na minha especialização profissional direcionada para o desenvolvimento das bibliotecas públicas, mas fazê-lo como parte integrante de uma vida boa, no sentido ético do termo, que quero viver todos os dias, e que este blogue tenta definir. O mais difícil tem sido viver estas decisões com os constrangimentos da minha vida pessoal que em muito ultrapassam a minha vontade e até mesmo a minha força física e anímica. 

Em relação ao primeiro trimestre do meu 1º ano sem compras, devo concluir que me tem sido fácil vivê-lo, e até mesmo esta fase complicada em que vivo tem contribuído positivamente nesse sentido: acabei por simplificar mais ainda o Natal.

No que respeita às prendas, decidi-me por apenas uma por adulto: meias para os homens da família e collans para as manas. Como sempre faço, dei a cada um dos meus sobrinhos dei uma nota de euros, a mais pequena, devidamente enrolada na sua fita vermelha, e às pequenitas livros infantis ilustrados que todos os anos me oferecm. Apenas abri uma exceção para o meu filho que queria um anel. Custou-me cerca de 50 € e expliquei-lhe que tinha também um valor simbólico, o de mudança que ele está tentando levar a cabo com tantas dificuldades. A minha cadelinha foi presenteada com uns arreios para susbstituir a coleira que tinha e que penso que a magoava.

O jantar de Natal foi, este ano, foi feito a meias com uma das minhas irmãs e foi também simplificado: tirando o tradicional bacalhau de que os adultos não abdicam, acabou por ser vegetariano: pasta com molho de tomate, cogumelos cozinhados em alho, azeite e coentros, batatas novas assadas em azeite e alho e esparregado de nabiças e diversos queijos. Os doces ficaram-se pelo Bolo Rei que é comprado e pela mousse de chocolate...

Não digo que não tenha tido algumas tentações consumistas, mas basta-me pensar no destralhamento e na reorganização que tenho vindo a fazer na minha casa para me ser de imediato evidente aquilo que precisaria-gostaria (porque precisar-precisar não preciso mesmo de nada) de ter.

Projetos, uns novos outros para continuar, tanto pessoais com profissionais tenho vários. E é para os realizar que tenho de me fortalecer e de me preparar.
Imagem retirada daqui.

sábado, 24 de novembro de 2012

Dias 54 e 55: DIA INTERNACIONAL SEM COMPRAS, 23 e 24 de Novembro !

In awarenessact
Foi na América do Norte, berço do hiperconsumismo, que, em 1992, foi criado BUY NOTHING DAY (BND), o DIA SEM COMPRAS (DsC), hoje celebrado em cerca de 65 países do mundo desenvovido. 

Contudo, muitos são ainda os que nunca em tal ouviram sequer falar. Portugal é exemplo de um país onde esta mensagem não passou como se pode constatar na mera divulgação anual deste dia no sítio gaia.org.pt. Ontem mesmo, um amigo perguntava a uma amiga, no Facebook, a propósito do logo do NBD 2012, acima publicado: «O que? Não comprar nada! Nada? Nem mesmo um cafezinho?»

Segundo a Wikipédia em língua inglesa, o Buy Nothing Day (BND) é um dia internacional de protesto contra o consumismo, organizado por ativistas sociais e cidadãos preocupados. Originalmente criado em Vancouver pelo artista Ted Dav e promovido pela revista canadiense Adbusters, o DIA SEM COMPRAS propõe a reflexão social sobre o consumo consciente. Em 1997, a data foi em definitivo fixada para o dia seguinte ao Dia de Ação de Graças, a famosa Black Fryday (este ano a 23 de novembro), o dia por excelência do consumo desenfreado: começa em plena madrugada, gera filas intermináveis à porta de grandes armazéns, discussões infindáveis, aquisições absurdas e mesmo violência física. Internacionalmente, este Dia foi fixado para o último sábado de novembro, considerado o primeiro fim-de-semana de consumismo natalício: hoje, portanto!

O apelo, através de publicidade inteligente, a uma reflexão alargada sobre os valores essenciais e as verdadeiras necessidades de consumo do ser humano, a escassez dos recursos naturais e a pegada ecológica originada pela produção e transporte dos produtos, causou grande impacto na América do Norte. Em 2000, a maioria das grandes cadeias televisivas norte americanas impediram a publicidade a esta iniciativa, com exeção da CNN. Vale a pena ver a perplexidade da jornalista desta estação (Come on..., come on...perante afirmações de Kalle Lasn sobre as distorções causadas pelo sobreconsumo do Ocidente que exige 80 % de tudo o que existe como se tivesse três planetas Terra à sua inteira disposição:


Entrevista no Youtube.

Em 2011, o Occupy Movement inspira a campanha Occupy Xmas cujo lema era Buy Nothing Christmas. Posteriormente, Lauren Bercovitch, o produtor da Adbusters Media Foundation propõe uma reconversão de Occupy Xmas: fazer os seus próprios presentes e comprar menos, fazê-lo no pequeno e médio comércio nacional de modo a apoiar a economia local, os artistas e artesãos através das compras de Natal. Presentemente, o Buy Nothing Day, para além de afirmar a celebração mais verdadeira e mais simples do Natal, propõe o consumo natalício como forma de apoio à economia local e à família: um dia para pensar e para iniciar um compromisso pessoal por um outro estilo de vida em que se consuma menos, com consciência e localmente, de modo a produzir menos desperdício e a obter melhor qualidade de vida.



terça-feira, 2 de outubro de 2012

Dia 1: Declaração de intenções

Quando, este verão, me decidi por viver um tipo de vida minimalista, resolvi dedicar o mês de setembro a uma preparação interior. Considerei este tempo necessário para fazer diversas leituras sobre esta opção de vida, para refletir sobre o que ela implicaria em termos de compromissos futuros e para me testar a mim própria.


Percebi também, depois de ler muitos e diferentes depoimentos que o projeto «Um ano sem compras» era o compromisso ideal para desencadear as rotinas, as reflexões e os sentimentos que poderão iniciar-me nesta nova atitude perante a vida, e depois consolidá-la. É muito provável que, ao longo deste ano, passe por crises de carência e tenha algumas recidivas, mas na verdade estou muito confiante. E muito feliz com esta minha decisão também.

O que comecei por pôr em prática em setembro foi simplesmente a integração nas minhas tarefas domésticas de 15 minutos diários de organização e a seleção de 3 objectos para deitar fora ou doar. Confesso que não sei se consigo entrar no mercado de venda em segunda mão, mas sei que esta é uma questão de preconceito e de educação que devo tentar superar. Reforcei também conscientemente os meus hábitos de alimentação saudável e cozinhada por mim.

Assim, o que me proponho ao longo deste ano é não comprar absolutamente nada que não seja para alimentação, saúde (incluindo a da minha cadela que é um ser muito frágil) e estudos, nomeadamente os do meu filho que são caros. Manterei também os consumos de água, eletricidade, gaz, tv cabo, telefone, fixo e móvel e Internet que entretanto tenho vindo a negociar e a reduzir para valores mais baixos. O mesmo para a utilização quotidiana do meu carro que já tem 10 anos de funcionamento perfeito, pelas mesmas razões da Ziula (comentário de 1 de outubro de 2012), tanto para o emprego (deixando agora o meu filho no caminnho), como para as compras de supermercado e, eventualmente, para viagens de trabalho.


Terei de fazer obrigatoriamente duas viagens a Espanha por ano, tanto por compromissos pessoais como profissionais, e considero-as parte integrante das minhas férias: compro as passagens de autocarro e de avião a um preço muito baixo e os gastos são apenas de estadia. O resto das minhas férias tenciono vivê-las depois e, pela primeira vez em mais de 25 anos, muito simplesmente, e dedicá-las apenas a mim.
 
Quanto a gastos pessoais, tenho um guarda-roupa mais do que suficiente para este ano, mesmo com os destralhes que já fiz e continuo a fazer com o sistema 3 itens por dia. Neste caso, apenas me permitirei comprar alguma peça  de desgaste rápido, como collans ou alguma t-shirt de manga comprida, e alguns itens de retrosaria, porque adoro customizar a minha roupa e é um trabalho que me faz muito bem. 

Para o meu bem-estar físico e psicológico, reservo apenas as minhas aulas de yôga e uma ida ao cabeleireiro de dois em dois meses, para um corte e uma luzes no cabelo, como diz também a Ziula. Quanto aos shampôs, cremes diversos e água de colónia serão os que se vendem no supermercado (nivea, pantene, johnson...), os quais são comprovadamente bons, segundo a Associação de Defesa do Consumidor: a única diferença em relação às marcas caras é apenas a de que estas lhes levam uma ou duas gerações de avanço, o que para mim, aos 57 anos não me parece significativo. 

No que respeita aos tempos livres, tenciono usufruir ao máximo de todo o tipo de atividades gratuitas ou acessíveis e realmente compensadoras, tanto mais que necessito obrigar-me a sair da rotina casa-trabalho-casa que vivo há demasiados anos.

Com a casa. entre o destralhe e a organização, talvez necessite apenas da compra de uma ventoinha (agora seria o ideal por estarem «em promoção mesmo!») e para o inverno de um aquecimento (que talvez possa também esperar pelas promoções da primavera, sobretudo se as temperaturas não descerem muito este ano...). Devo decidir se as obras de manutenção que já tinha previstas com a devida reserva orçamental, deverão ser feitas este ano ou deverão aguardar mais um ano! Isto porque o meu condomínio necessita de obras estruturais e os estudos do meu filho vão comportar gastos quase no limite das minhas disponibilidades financeiras.

Por último, devo referir que manterei a empregada que trabalha cá em casa 8 horas por semana. Por duas razões: a primeira porque estou a viver um ano de transição de vida (que inclui o trabalho de o meu filho se tornar num adulto independente) e a segunda porque a crise também me obriga a contribuir para dar trabalho a alguém.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

«Um ano sem compras»

É verdade! No dia 1 de Outubro inicio-me numa vida mas comprometida a e assumidamente minimalista, como agora se diz, ou como se dizia antes, mais no sentido do ser e menos no do ter, mais frugal e mais simples. Para dizer a verdade, esta opção não é nova para mim, mas nunca, antes de outros terem avançado e testemunhado este projeto, a coloquei desta forma lúcida e empenhada. 


Mapa do bem-estar mundial

Desde jovem que tenho muito presentes as assimetrias do mundo em que vivemos. Para além do que aprendi com o Graal português antes de 1974, o facto de ter dado aulas de português em Angola, nos anos 80, numa pequena vila do planalto central alterou de vez a minha visão do mundo! A experiência de viver numa comunidade pobre e subnutrida, para mim que pertencia a uma famíla da grande burguesia lisboeta, foi tão violenta que quase morri: como quase deixei de conseguir comer, contraí uma broncopneumonia dupla, num local onde não havia antibióticos e, mais tarde, quase sucumbi a uma violenta crise de paludismo. Sobrevivi graças ao meu estatuto de professora cooperante e a uma congregação religiosa italiana que vivia na mesma vila do que eu.

Contudo, se esta visão constante da coexistência de dois mundos, o do Norte e o do Sul, um em contraponto do outro, sempre me acompanhou ao longo da vida, tal não me impediu de embarcar também em muitas, demasiadas, aventuras consumistas. Como a maioria de nós, por pura ilusão de um consumo ávido de felicidade instantânea. Todas as desculpas validavam os breves momentos de alienação e de encantamento que o consumo proporciona: porque estava deprimida, porque me sentia feliz, porque era um programa de grupo, porque estava só...



O que descobri nestes projetos «Um ano sem compras» é que podem mudar radicalmente a nossa vida. Porque, se se iniciam com uma recusa ao consumo supérfluo, acabam por nos conduzir a outros níveis de exigência, como o «destralhar» da nossa casa e da nossa vida e a procura do que nos é essencial. Assim, facilmente passamos de uma melhor organização do quotidiano para uma vida melhor, com mais qualidade de_vida: dormir bem, comer melhor, fruir o convívio com aqueles que amamos, valorizar o melhor do que possuímos, conhecer a alegria da dádiva, cuidar bem do nosso corpo, recuperar o sentido de humor e exercê-lo...

Foi assim que cheguei ao dia 18 do mês 0: decidi dar-me um mês zero para me preparar melhor e para definir concretamente o que posso e não posso fazer. Na realidade o meu «Ano sem compras» já começou e tenho-me sentido muito feliz com esta opção.

Não tenho comprado nada de supérfluo: um livro de filosofia importante para este meu projeto, 3 canetas fluorescentes para a organização dos meus papéis, 3 latinhas de tinta para tingir tecido  e assim reciclar 3 peças do meu guarda roupa, um lanche de trabalho e dois de «compensação» por uma tristeza que me invadiu o coração até às lágrimas, do tipo Calimero:«coitadinha de mim, por que razão me acontece isto, logo a mim...».


 



3 marcadores e 3 latas de tinta para tecidos

 
  3 lanches supérfluos

Mantendo ainda as minhas rotinas diárias, tenho conseguido «destralhar» 3 objetos por dia (ou mais) conjuntamente com 15 minutos diários de organização, métodos estes que se adaptam bem a esta fase que estou a viver. Tenho também repensado as minhas práticas diárias: da televisão apenas tenho visto um ou outro telejornal, tenho tentado levantar-me mais cedo e mantenho uma dieta alimentar bastante saudável e caseira.

A (vi)ver! 

sábado, 15 de setembro de 2012

Compromissos e desafios: que vida queremos viver?




Quando nos começamos a questionar sobre nós próprios e sobre a vida que até agora vivemos, parece chegado o tempo de iniciar um período de distância e de isolamento que nos permita centrarmo-nos num processo de autoconhecimento.

Ganhar distância e isolamento.
 
O Homem de Vitrúvio (Da Vinci).



Penso que é nesse sentido que um projeto como o de «Um ano sem compras», agora tão difundido na Web, constitui um desafio ao qual diversas  pessoas do mundo desenvolvido se têm proposto. Na blogosfera é relatado na 1ª. pessoa, quotidianamente, e comentado por uma comunidade que nele se revê. Na realidade, trata-se de um desafio à capacidade individual de enfrentar e de controlar os constrangimentos da sociedade de consumo em que vivemos. A maioria das pessoas que o levaram a cabo começou por o achar fácil, tanto mais quanto detinham já uma atitude crítica e culturalmente consciente do modo como, nos países mais ricos do nosso planeta, todos somos, de muitas formas mais ou menos conscientes, enredados no consumismo puro e duro.


Com que nos (pre)ocupamos?



Acompanhar estes depoimentos na Internet elucida-nos, contudo, quanto esta opção se vai revelando, ao longo das semanas e dos meses de um único ano, extraordinariamente difícil. Tanto que muitos desistem algum tempo depois de terem assumido este compromisso pessoal, a que ninguém os obrigara. Outros, tendo levado a cabo esta «experiência», regressam ao consumo ainda que agora de modo mais criterioso e controlado. A verdade é que, deste lado do mundo, crescemos habituados a viver com muito mais do que com tudo o que na verdade necessitamos para viver. Mais ainda, temos tudo em duplicado, em triplicado, em decuplicado MESMO! Então, como podemos a passar a outro modus vivendi contra natura, já que este o bebemos com o leite materno e o respirámos de então até hoje?
 


Lixo espacial orbitando em torno da Terra (NASA) 







Os relatos disponíveis indicam-nos que esta é uma autêntica experiência de confronto com os nossos limites de despojamento, até certo ponto semelhante à de um ano de trabalho com uma comunidade de bosquímanes do deserto do Calahari ou de um retiro num mosteiro budista…

  Viver simplesmente


Uma vivência de autoconhecimento e de consciencialização de quem somos de facto e da atitude que temos perante o mundo à nossa volta. Extremamente exigente e libertária. Um percurso iniciático para se aprender a viver uma vida verdadeiramente boa, no sentido filosófico do termo.