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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Noite de blue moon

Esta noite o nosso céu oferece-nos uma bleu moon, um fenómeno astrológico relativamente raro que assinala uma segunda lua cheia num mesmo mês, em julho, este ano.

O significado e a história do fenómeno da lua azul são conhecidos e explicados em quase todos os meios de informação, mas penso que, para a maioria das pessoas da minha geração, a memória que mais inconscientemente lhe atribuímos é a da canção blue moon cujo final feliz nos confirma que o impossível (once in a bleu moon) acontece: 


Blue moon, you saw me standing alone

Without a dream in my heart
Without a love of my own

Blue moon, you knew just what i was there for

You heard me saying a prayer for
Someone i really could care for

And then there suddenly appeared before me

The only one my arms will ever hold
I heard somebody whisper, "please adore me"
And when i looked, the moon had turned to gold

Blue moon, now i'm no longer alone

Without a dream in my heart
Without a love of my own


Das múltiplas covers e versões desta canção, registadas de 1934 até hoje, a minha preferida continua a ser esta de Dean Martin.





Feliz noite de blue moon!

sábado, 1 de novembro de 2014

Surpreendentemente, como só nós, humanos: o culto dos mortos para celebrar a vida!

O culto dos mortos é uma das manifestações espirituais ritualizadas mais antigas e encontra-se presente, desde os tempos mais remotos da nossa espécie, em todas os continentes. Com efeito, a força vívida desta comunhão entre as pessoas e os seus antepassados, ultrapassa em muito uma mera manifestação mística. Porque o objectivo desta reunião sacralizada de vivos e mortos é na realidade uma celebração da vida. A vida que ganha um sentido maior perante a inevitabilidade da morte, do fim da vida como a conhecemos, e para muitos o princípio do vazio, do nada.

Monumento funerário do Neolítico em Portugal (Fornos de Algodres).
As origens mais remotas desta celebração explicam-na como um conjunto de rituais que marca o princípio do Inverno, dos tempos de frio e de fome, das noites escuríssimas e intermináveis. De entre esses rituais, constava a comunhão de diversos alimentos à luz de velas e lanternas, por forma a afugentar o medo e a escuridão. Os mortos não eram esquecidos. Eram convidados de honra. 

Segundo a UNESCO, a propósito da comemoração do Dia dos Mortos no México, este culto desempenha a função social de afirmação do lugar do indivíduo no seio da sua comunidade, transmitindo-lhe um sentido de pertença e contribuindo para a coesão da identidade colectiva. Quanto a mim, é esta força, tão emocional quanto cultural, que explica como, ao longo da história da humanidade, as diversas religiões dominantes foram sistematicamente integrando as celebrações ancestrais, pagãs e animistas, da celebração dos mortos de uma comunidade.


Celebração do Dia de Finados.
Transmutada presentemente em Halloween, a noite da celebração da morte em Portugal assume-se agora como uma noite de brincadeiras, mascaradas e de jogos de sustos, sobressaltos, surpresas. Aliviados por muitas gargalhadas e brincadeiras mais ou menos infantis. E, contudo, não deixa por isso de ser ainda uma celebração da morte, mesmo que sob a forma de desafio de crianças, que a sociedade de consumo evidentemente explora

E o nosso Dia de finados, que há muito se confunde com o Dia de Todo-os- Santos, tem ainda força suficiente para movimentar uma visita massiva dos portugueses aos túmulos dos seus mortos. Numa sociedade em que a morte é renegada como um tabu para um lugar o mais distante possível da vida, e com tudo o que de superficial estas derivações do culto ancestral da morte integram, vivê-las só nos pode com certeza fazer bem.


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

May you all bless me, dear mothers and sisters before and behind me...

Há dois meses escrevi aqui que, neste meu percurso por uma vida mais simples, desejava uma vida frugal e exigia, para mim própria, uma vida melhor. Mas, na realidade, de que estou eu concretamente a falar?

Sei que estou a preparar uma mudança radical de vida para os próximos anos (dois anos, cinco, oito, não sei...), e que para tal tenho de caminhar devagar, mas com firmeza e muita paciência. O que, só por si, implica no meu caso uma grande aprendizagem: não apenas porque tenho alguma tendência para acelerar, mas também porque todos nós sabemos que a paciência é uma virtude... chinesa, ou seja, praticada nos antípodas, pelo menos... de mim!

Neste ano de 2014, tenho em primeiro lugar de me dedicar ao meu filho e também ao pai dele. Tanto um como outro estão doentes, cada um deles em grave depressão, e precisam de construir vidas boas e independentes de mim: um assumindo progressivamente uma vida adulta e o outro construindo um tempo de reforma recompensador e feliz. E a primeira fase da mudança ocorrerá já neste mês de janeiro.

O que significa que terei de investir emocionalmente na melhor forma de conduzir este processo difícil e doloroso para os três e só poderei fazê-lo cuidando mais de mim. Ou seja, tenho de dormir bem, de comer bem, de praticar mais horas de meditação, isto no mínimo, de modo a conseguir aquietar o meu coração e tranquilizar-me interiormente.

A fé e a força de que necessito para levar a cabo esta primeira fase e todas as outras que se lhe seguirão repousam em mim própria, enquanto mulher, conscientemente herdeira de gerações e gerações de mulheres, as «cuidadoras» da espécie humana

A noção de «cuidados»* é uma noção que só agora começa a ser estudada e avaliada até mesmo em termos económicos e sociais. Como presentemente é definida, abrange as intervenções que têm por objetivo manter, atender, reequilibrar ou cuidar da família e da comunidade. Na prática, são os trabalhos invisíveis e as tarefas obscuras repetidas todos os dias da vida, na sua maioria despensados por todas as mulheres em toda a parte do mundo que têm desde sempre garantido a sobrevivência das sociedades humanas e da própria vida: os trabalhos de criação (crianças, animais, vegetais...), de manutenção da capacidade produtiva de um terreno, de regeneração de um território devastado, de construção e conservação de abrigos (casas, vestuário...) de transmissão de saberes sobre a saúde ou sobre alimentos….

Estes trabalhos de cuidados constituem esteios de vida e são chaves para a sustentabilidade.… Realizados sem horários, em permanente e incessante luta contra a corrente de todo o tipo de carências: desordem, sujidade, falta de alimentos, abandono afetivo e efetivo... desde tempos imemoriais.

Australopithecus afarensis 3.85 - 2.95 milhões de anos a. C.
Neandertais, 50 000 - 30 000 a.C.
Mulher sapiens sapiens 160 000- 200 000 anos a.C.
Espanha, séc. XVI (Velásquez).
Mulher esquimó (1933).
OndjoyetuSumbe, Angola.
Fujian, China.
Yaopu, Shaxni, China.
Cidade de Guatemala.
Peshawar, Paquistão.
Muriaé, Brasil.
Portugal.
É pois à memória coletiva da força interior necessária à realização dos trabalhos de cuidados realizados ancestralmente por mulheres de todas as latitudes, minhas mães e minhas irmãs, que irei pedir a benção e a ajuda de que agora necessito.



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Yaro Herrero, Fernando Cembranos e Marta Pascual (coord.) – Cambiar las gafas para mirar el mundo: una nueva cultura de la sostenibilidad. Madrid: Libro sen Acción, 2011, p. 181.201

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Casa minimalista e «decoração na fé»

Como já afirmei aqui antes, no que respeita à construção de uma casa minimalista não posso deixar de me comover com os Dez mandamentos de decoração com emoção da Thalita do blogue Casa de colorir. Pode até ser uma contradição da minha parte, mas já há muito que aprendi que para as resolver tenho de amar as minhas contradições. Destes mandamentos, um dos que já há muito pratico é o da decoração na fé. Na fé no melhor de nós, evidentemente!

Assim, depois das obras cá em casa e do respetivo destralhamento geral (o segundo nesta casa!), voltei a harmonizar os meus santos.


Avé, Maria, cheia de graça...
(Nossa Senhora da Conceição, a que tem as duas mãos postas)

Namo tassa bhagavato arahato samma sambuddhassa.
(Honour to the blessed'one, the exalted one, the fully enlightened one)
(Budha) 

Salve, rainha, mãe misericordiosa, vida, doçura e esperança nossa, salve! 
(Nossa Senhora com o menino nos braços)

Om namah shiva...
(Shiva)

O meu Presépio.


Todas estas figuras e imagens me são queridas e me fazem sentir bem e em casa. Acredito que Nossa Senhora seja a apropriação cristã de Gaia, Géia, Gea ou , a deusa Terra, a Mãe Terra. Ou antes ainda, nos primórdios da nossa humanidade: aquele(a) que tudo dá: BHAG (o mais antigo nome indoeuropeu para deus), o ser primordial gerador de vida. Tal como me interrogo se Nataraja shiva (o rei dos dançarinos) não seria originalmente uma mulher... Já o gesto simbólico de mãos postas de todos os cristãos tem a mesma origem do muito mais antigo prônam mudra (do sânscrito) 🙏 .

Por isso, não sendo crente, honro os meus santos enquanto memória da espiritualidade humana milenar e símbolos de determinação e de, a que move montanhas, e nos ajuda a lutar pelo mais difícil, pelo impossível até.

Em nome do Espírito Santo, aquele que inspirará o reinado mais elevado do desenvolvimento humano.

 Amén...

sábado, 21 de dezembro de 2013

Solstício de inverno: as fogueiras de Natal

O inverno de 2013 (o tempo mais frio e mais sombrio do ano do hemisfério norte) terá início hoje, 21 de Dezembro às 17h11, dia do solstício de inverno.

Imagem retirada daqui.


A palavra solstício deriva da palavra latina solstitium (sol + sistere, que significa estacionário): o sol parado nessa posição na órbita celeste. Este dia assinala a noite mais longa do ano neste lado do planeta e significa também, o que muitas vezes esquecemos, que todas as seguintes serão sempre um pouco mais curtas. Até 21 de março de 2014, às 16h07, data do equinócio da Primavera, em que de novo o dia e a noite têm a mesma duração, do latim equi, como em equilíbrio.

A história da humanidade regista a celebração desta data em distantes e diversas culturas desde tempos imemoriais: na noite mais longa, como saber se a noite não aumentaria mais e mais e mais, instalando-se para sempre? 

Por isso, no meio desta noite que nos países católicos, como Portugal, se transferiu para a véspera de Natal, os seres humanos se reuniam e se reúnem ainda para convocar o sol através do fogo, do canto e dança. Para vencer o terror de uma perpétua escuridão noturna e deste modo propiciar um pouco mais de sol em cada dia.

Em Portugal, esta tradição ancestral e pagã convive bem com o nascimento do Menino Jesus e a Missa do Galo. Assim, de norte a sul do país, todos os anos se acendem milhares de grandes fogueiras de Natal, também conhecido como o Madeiro de Natal, quase todas alimentadas até ao Dia de Reis, contribuindo em muito para a alegria e para a coesão da comunidade.
 
Preparação, aqui em Barrancos, feita uns dias antes.
Fogueira de Natal em Monforte.
Para quem quiser saber um pouco mais desta tradição que, depois de quase extinta em diversos locais, tem vindo a ser vigorosamente recuperada pelos próprios habitantes de cada localidade, este breve vídeo de um 1:18 mostra o calor partilhado da fogueira de Natal numa pequena vila do norte de Portugal, Sendim.