sábado, 20 de outubro de 2012

Dia 20: Relações de amizade e relações amorosas

Penso que talvez em razão dos compromissos que assumi este ano, a maioria dos quais sistematizei já neste blogue, não me sinto nem sozinha, nem triste. Neste último ano, tenho aliás adiado muitos encontros, jantares, idas ao cinema, lanches, passeios... com amiga/os do coração e que sei que me fazem sempre tão bem. Mas, simplesmente, entre o meu filho, a casa (que inclui a administração  do condomínio), o trabalho e esta minha opção por uma vida minimalista e hiperconsciente, o tempo não me sobra.

Sei que tenho de fazer um esforço para estar com os meus amigos. Devo-lhes isso, a eles e a mim, um tempo bom de conversar sobre tudo e sobre nada: os nossos sonhos, os nossos projetos, o nosso papel enquanto profissionais e cidadãos privilegiados que somos! Mas também sobre a nossa imagem e o nosso look, as receitas de culinária e as fofocas mais recentes, o filme ou o livro que nos emocionaram, o artigo que nos surpreendeu, a anedota que nos fez rir até às lágrimas...


Espaços de luz e de vida.

Estes espaços de tempo devem fazer parte integrante dos nossos compromissos de vida e eu tenho-os descurado muito nos últimos meses. Nos últimos anos mesmo! E não devo continuar a fazê-lo porque estes encontros são extremamente compensadores: abrem espaços de luz num quotidiano demasiado absorvente que, sem darmos conta, pode estar a empobrecer-nos ou a fragilizar-nos. De todas as vezes que abri um lugarzinho destes no meu dia-a-dia demasiado cheio de afazeres, vim de lá sempre mais feliz e mais viva. Em psicoterapia chama-se a isto reforço de energias positivas!

Todas as relações implicam trocas de energia e nas relações de amizade, como nas relações amorosas, podemos e devemos oferecer e dar energia positiva a quem dela necessita, e pedir e receber energia positiva se dela precisarmos. O ideal é quando reforçamos mutuamente as nossas energias positivas, como quando vamos aos tais lugares de luz que temos também de ser nós a construir. O que não podemos é permanecer nem em dádiva, nem em peditório perpétuos...

Hoje compreendo que foi porque passei a maioria da minha vida em modo de dádiva que, algures entre os 40 e os 50 anos, me saturei da  maioria das minhas relações de amizade e... acabei com as relações amorosas! Foi uma espécie de reboot (mas porque será que me deu hoje para a terminologia informática?). Analisada esta situação, agora com mais distância, penso que sou capaz de ter exagerado!

Mas a verdade é que esgotara muitas das minhas amizades. Ao fim de anos e anos em que pouco ou nada recebera em troca, percebi que aquelas pessoas já nada mais tinham que me interessasse! Quanto às relações amorosas, esta é toda uma outra história.


Não é com certeza por acaso que no mundo desenvolvido uma grande parte das mulheres prefere, a partir de determinada altura da vida, viver sozinha na sua casa, mesmo mantendo uma relação de amor! A mim, parece-me uma excelente solução. Isto, caso eu encontrasse alguém que me encantasse, o que também é estatisticamente improvável. Aos 56 anos, tornei-me demasido exigente e seletiva para encontrar um par, um igual, sendo que na realidade há pouquíssimos homens da minha geração que sejam efectivamente interessantes: cuidadores, imaginativos, independentes, leais, comprometidos com o que é verdadeiramente importante na vida e... disponíveis. Todos os outros não me interessam. 

Para mim, viver um conto de fadas de amor só tem sentido quando se é jovem, quando acreditamos em compromissos a dois para toda vida o que, em geral, sucede quando queremos ter filhos e criá-los felizes e bons. Na vida, tudo tem um tempo e um espaço e viver essa aventura do encontro com o(s) outro(s) com o(s) qual(is) alargamos as fronteiras dos nossos próprios limites não é uma exceção. 

Como afirma Ziula Sbroglio em Você quer segurança?, também eu gosto muitíssimo de ver um casal em harmonia. Comove-me sempre. Mas não acredito que seja para mim, tanto mais quanto me sinto bem comigo e com o mundo.
AUM (OM, OHM), símbolo do som (também interior) da luz e da vida.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Dia 18: Cheesecake com chuva!

Quando esta semana fui ao supermercado, demorei mais tempo em frente às prateleiras dos laticínios. Não encontrava as natas que queria para uma tarte de aniversário: o meu filho faz hoje 25 anos e tinha decicdido fazer-lhe um cheesecake. Foi assim que ouvi sem querer parte de uma conversa telefónica.

Uma jovem de cerca de trinta anos, elegante e bonita, comentava de frente para as prateleiras dos iogurtes —,  entre a surpresa e a angústia, como tinha sido possível que ela e o marido tivessem chegado àquela situação: se tinham trabalhado tanto e se tinham ganho tanto dinheiro, como é que estavam agora cheios de dívidas? E como é que ele, o marido, se recusava a deixar de andar de carro, se isso implicava uma despesa mensal considerável... Como é que ele não via o que lhes estava a suceder?


Contexto.

Confesso que me senti triste e impressionada. Foi a primeira vez que vi ao vivo uma jovem, aparentemente culta e inteligente, cuja vida se desmoronava perante o problema que todos os dias é retratado à exaustão em todos os meios de comunicação: o assustador endividamento da classe média! Pensava que agora já todos sabíamos como tínhamos chegado a isto, como tinha sido fácil sermos enganados e enganarmo-nos a nós próprios pelo mais do que sedutor apelo ao consumo! Pelo exemplo desta jovem e, pior ainda, do marido, parece que muitos de nós ainda se não deram conta de que somos um país pobre, com uma produtividade baixa e um elevado índice de iliteracia! E que o que ela comentava com estranheza e perturbação era apenas um exemplo da crise gravíssima em que Portugal mergulhou e que não acontece só aos outros. Pelo contrário, atinge milhares e milhares de pessoas como nós.

Na altura tive vontade de falar com ela, de lhe explicar o que se passava e de como ela poderia resolver o problema em que vida dela se enredara. Gostaria de lhe ter podido dizer que não é assim tão difícil, e muito menos impossível, modificar os nossos hábitos de consumo. Que viver bem não é consumir, e ainda pior se é acima das nossas posses. Que, pelo contrário, é extremamente compensador sermos donos e senhores das nossas próprias vidas e que, para tal, basta organizarmo-nos e planearmos o futuro a curto-médio prazo. Que o consumo consciente nos tornamos mais vivos e nos transforma em pessoas melhores e mais sábias. Que aumenta a nossa qualidade de vida!

Entre  a zona dos laticínios e a dos condimentos alimentares, perdi-a de vista. Reencontrei-a depois da caixa registadora. Saiu à minha frente com um pequeno saco de plástico na mão, enquanto um pobre de pedir, a quem eu dera um euro à entrada, me queria ajudar a carregar os meus enormes sacos de compras.

Fiquei a pensar nos dois: a jovem elegante cheia de dívidas e o senhor idoso que vive de pedir. Chove lá fora e chove no meu coração!

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Dia 14: Casa arrumada por... Carlos Drummond



Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas...
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida...
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto...
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos...
Netos, pros vizinhos...
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias...
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...
E reconhecer nela o seu lugar.

Eu quero a minha casa assim. Obrigada, Carlos Drummond, aí mesmo onde o senhor estiver, por me ajudar a viver melhor!

domingo, 14 de outubro de 2012

Dia 13: Reciclagem de roupa

Reciclar a roupa que possuímos e não usamos é provavelmente uma das primeiras tarefas de todos os que optam por uma atitude de consumo consciente!  Contudo, para a realizarmos como deve ser, devemos ter em conta algumas regras, a saber:

Regra nº. 1: não melhor forma de reciclar do que reutilizar o que já existe. Porquê? 

«Tudo o que deitarmos fora volta-nos»
A campanha ecológica Everything you trow away comes back fá-lo muito bem, como aliás quase tudo o que a excelente organização ambientalista italiana Legambiente promove. Esta campanha afirma-nos que o lixo que todos originamos pura e simplesmente não desaparece. Contudo, ao invés de apenas nos mostrar as desmusuradas e insuperáveis montanhas de lixo que produzimos à superfície da terra, nas profundezas dos oceanos e mesmo no espaço em volta do nosso planeta, esta campanha sugere que o reutilizemos o mais (criativamente) possível.

Regra nº. 2:  Ao comprarmos roupa nova deveremos ter em conta o respetivo fabrico e ler bem as etiquetas. Devemos privilegiar as marcas, porque as há, que respeitam o ambiente e, por maioria de razão, o que oferecem as marcas às pessoas que para elas trabalham.

Se pensarmos apenas em tecidos, há que ter em conta que o algodão é uma cultura extremamente poluente (ao contrário da seda, por exemplo), tal como o tratamento das peles e que, em geral, todas as tintas utilizadas em tecidos também o são. Um simples par de jeans é exemplo do que não deveríamos comprar nunca! Como todos temos jeans, o ideal é pois usá-las ao máximo (comprámo-las, estão compradas), depois reciclá-las e pensar em alternativas ecológicas.

Quando compramos roupa nova há ainda outros problemas a ter em conta, nomeadamente o bem-estar dos pequenos produtores o que, a mim, me parte o coração. A lã, que é um produto ecológico, se comprada no comércio justo defende o trabalho de quem o cultiva e não os intermediários ou as grandes empresas têxteis. Este tipo de transação é contudo ainda incipiente e muito limitada, pelo que ou não temos acesso a ela ou não tem valor comercial útil. Por outro lado, as grandes multinacionais, no caso as do vestuário, têm vindo a comprar a camponeses pobres de todo o mundo grandes extensões de terra a preços irrisórios. O caso das terras roubadas aos índios Mapuches da Patagónia pela Benetton é apenas o exemplo mais conhecido. 

Regra nº. 3: Evitar ao máximo deitar roupa no lixo, reutilizando-a e reciclando-a. Todos temos presente que a roupa que já não queremos deverá ser vendida ou doada. A venda de roupa em segunda mão é um processo mais trabalhoso, mas também mais rentável. Já a doação deve ter em conta que a roupa se encontra em bom estado e que as pessoas ou entidades a quem a doamos lhe vão efetivamente dar bom uso. 
Um exemplo de ONG onde doar e comprar roupa.
Sobra então a roupa cujo destino é o lixo. Mas será este o único destino de toda a roupa que deitamos no lixo?  Não será possível reutilizar ainda pelo menos parte do que em geral se deita fora? Como? 

Se pensarmos criativamente, muitas peças podem ser reaproveitadas para outros usos. Lençóis e toalhas turcas podem dar excelentes panos de cozinha, basta cortá-los simetricamente e fazer-lhes uma bainha (ou não) e servem sempre também para panos de limpeza. As t-shirts e as sweatshirts muito usadas transformam-se também em óptimos panos de limpeza. Já os respetivos desenhos e logos, se estiverem em condições, podem ser recortados e aplicados em outras peças de roupa, o que as crianças e os adolescentes adoram. Mesmo em condições menos boas a Internet oferece imensas ideias para as reciclar. Os collants rotos, dependendo da densidade, permitem múltiplas reutilizações: podem ser cortados e transformar-se em leggings e em meias curtas (a parte cortada enrola-se por si mesma devido à elasticidade da malha), elásticos para o cabelo, fio para tricotar, embalagens para colocar roupa delicada na máquina... um sem número de itens que a Internet mostra sob a designação costumizar e DIY (Do It Yourself). Em português, vale a pena consultar os sítios O lado verde da vida e 365 coisas que posso fazer para diminuir a minha pegada ecológica.


Mas, até mesmo usados, tal e qual a imagem abaixo, parecem ser agora um must !
Collans ultra fashion.

As peças de roupa de bons tecidos, parcialmente estragados ou manchados, devem ser reconvertidos e todos nós temos ideia de como o fazer: as calças em calções, os blazers em coletes, as saias e vestidos compridos em saias e vestidos curtos ou em túnicas e blusas. Isto era a reutilização básica que as nossa mães e avós faziam sem lhes passar pela cabeça deitar a roupa fora. A Internet e as cada vez mais numerosas oficinas de customização de roupa dão-nos agora ideias e oportunidades de criar peças muito mais sofisticadas e originais. O que sobra em bom estado de um lençol alinhado ou de algodão do Egito facilmente se transforma num top ou numa túnica bonitos e tão confortáveis, como só os tecidos usados podem ser.

Nos últimos anos, como gosto de costurar e isso me faz muito bem, tenho reaproveitado e personalizado muita roupa. Muitos vestidos de tecido fininho de verão passam, simplesmente com o tempo, a camisas de noite. E não é apenas por estarem usados, mas também por serem de alças finas ou por terem um ar tão juvenil que agora já não consigo usar. Com uma customização mínima, tenho também montado pijamas muito bonitos, a partir de peças desirmadas provindas de outros «donos», como o meu filho ou as minha irmãs ou de outras utilizações como o yoga ou a ginástica.

Sou daquelas pessoas pelas quais tudo o que seja écharpes, lenços e pashminas tem uma atração incontrolável: saltam-me para o pescoço, para a cabeça, para a cintura, para a carteira. E eu adoro, claro!. Esta relação é tão forte que muitos me têm sido oferecidos pelos meus amigos. Quando descobri que tinha duas gavetas cheias destes maravilhosos panos de todas as cores, tamanhos e tecidos, percebi que se tratava de uma herança materna: a minha mãe tinha uma enorme gaveta cheia e, às vezes, deixava-nos brincar com eles. Ainda me lembro do perfume dessa gaveta deslumbrante.


Peças que me adoram!

Há cerca de três anos atrás, ao começar a destralhar o meu armário, confesso que apenas consegui doar uma quantidade pequena dos meus panos, pelo que passei a investir na sua reutilização. Como todos sabem, este tipo de panos é a peça mais básica e mais antiga da história do vestuário dado que permite uma grande versatilidade de usos que muitos povos de mundo praticam desde há milhares de anos. Presos simplesmente com nós ou com pregadeiras servem de saias, de vestidos, de blusas, mas também de toalhas e de caminhos de mesa, de forro de sofás, de cortinas... No Youtube encontram-se múltiplos exemplos. São por isso também peças excelentes para levar em viagem. 

Se pretendermos reconvertê-los em peças mais sofisticadas, costuramo-los. Em setembro, fiz de uma écharpe de inverno um casaquinho elegante e, de uma fronha de almofada de algodão com um desenho muito bonito, uma blusa de primavera. Ambas, como outras que tenho feito, são peças soltas, desconstruídas (abaixo exemplificadas) fáceis de fazer, que até podem ficar tortas e mal acabadas como as da conhecida marca Desigual, mas de que gosto muito.




                              
Blusa em dois tecidos.
Blusa-vestido Zara, pormenor.
Também as peças de lã, um produto mais ecológico, podem ser facilmente cortadas e remontadas em novas peças e são costuráveis como qualquer outro tecido. E são evidentemente desmancháveis e rebobináveis em novelos. O que as nossas avós também faziam até porque para esta geração «a lã nunca se deitava fora». Pode-se deste modo tricotar novas roupas, também do tipo solto e desconjuntado, ou mesmo outro tipo de itens.

Diversas peças de roupa ou pedaços de tecido podem ainda ganhar uma nova vida se forem tingidos, o que se pode fazer em casa, com tintas não poluentes ou produtos naturais: o chá e a beterraba, por exemplo, com resultados no mínimo surpreendentes. Um vez mais toda a informação se encontra disponível na Internet.

Caso não seja uma pessoa dada a estas aventuras manuais, excelentes para o nosso equilíbrio emocional e que aconselho vivamente, nem que seja pela experiência de criar e montar uma nova peça de roupa a partir de retalhos diversos, pode sempre fazer antes de deitar no lixo uma seleção de retalhos, rendas, fitas, botões... para oferecer a quem tenha este gosto. 

Por último, e esta proposta é para todos, quando precisarmos de comprar uma peça de vestuário e acessórios, ou de roupa de casa e mobiliário por que não tentar primeiro o comércio de artigos em segunda mão: lojas, armazéns, feiras e Internet?




sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Dia 12: A vida concebida enquanto projetos sucessivos

Penso que vivemos melhor se planearmos as diferentes fases da vida como  projectos sucessivos a médio prazo, de 3 a 5 anos. Ou seja, se não definirmos o que queremos e se não estabelecermos objectivos, metas e prazos, vamos vivendo sem que a nossa vida seja aproveitada ao máximo. Falo por mim e pela maioria das pessoas que conheço.

Em boa verdade, se refletirmos sobre o nosso passado, facilmente podemos detetar diversas etapas-chave das nossas vidas: a infância, a adolescência, a entrada no mundo do trabalho, o casamento, os filhos, a maturidade plena... Contudo, a generalidade de nós, eu incluída, não as planeou pelo menos enquanto projeto de vida a alcançar conscientemente, com prazos e níveis determinados  de exigência: o meu objetivo inicial de trabalho até aos 30 anos é..., o meu projeto de família até... é..., o que pretendo do meu casamento daqui a cinco anos é...,  o que eu desejo para os meus filhos durante a sua adolescência é... Não lutámos pois por objetivos com datas estabelecidas e patamares de maior qualidade como metas a alcançar. As diferentes etapas da vida aconteceram-nos, sem que delas tenhamos tido o maior grau de consciência possível, o que implica que as não tenhamos provavelmente vivido e fruído tão bem quanto se o tivéssemos feito.

Conhecermo-nos e ao mundo em que vivemos.

Contudo, quando iniciamos um modo de vida consciente e procuramos analisarmo-nos com alguma distância a nós próprios no mundo em que vivemos, ultrapassamos um ponto de não retorno, a partir do qual a vida nunca mais poderá vir a ser como antes era. Deo gratias!

Para mim, inicia-se agora inequivocamente uma nova etapa de vida, que é neste momento o meu grande projeto pessoal, da qual «O ano sem compras» é apenas uma primeira fase. Dele também fazem parte o apoio à progressiva independência do meu filho, a qual por sua vez se relaciona diretamente com a minha própria independência. O que pretendo eu ter atingido, consolidado e dado como adquirido daqui a cinco anos? Uma vida ativa e criativa, frugal e baseada no desenvolvimento do melhor de mim e dos que me rodeiam. Sim. E mais?


Fases da vida.

Em termos profissionais, também iniciei uma fase de viragem: passei a trabalhar mais informalmente e a interligar o meu trabalho formal com o informal. Tal permite-me a manter-me atualizada e a contribuir com mais eficácia e eficiência para aumentar o nível da minha profissão e, já agora, ajudar o meu país a ultrapassar a crise em que vivemos. Mas, para daqui a cinco anos poder viver apenas do meu trabalho independente, vou ter de estudar com afinco  uma estratégia de carreira.

Conceber um projeto de vida.

É curioso pensarmos como nós, os do mundo desenvolvido, tão cultos, tão capacitados com tantas séculos de teorias filosóficas e com tantas ferramentas tecnológicas ao nosso dispor, podemos viver um vida inteira, a única que temos, como crianças imaturas. Mesmo os sadhu, os monges  talvez mais pobres do mundo, perseguem conciente e obstinadamente um projeto de vida que se desenvolve em distintas etapas: a sua vida é dedicada em exclusivo à libertação (mokska), o quarto e último estádio da vida (ásrama), através da meditação e da contemplação de brahman, a essência, cuja natureza apenas pode ser compreendida através do autoconhecimento (atma jnana). 


Sadhu indiano.



Dia 11: Protegermo-nos de perturbações emocionais

A crise em que Portugal mergulhou desde 2008, mas acentuadamente no último ano, é agora visível de muitas formas. Para além dos grandes males resultantes do desemprego galopante e dos violentos cortes salariais, estamos mergulhados num compreensível, mas desmesurado desânimo e a maioria das pessoas está em depressão ou demasiado irascível. Foi assim que percebi que tinha de passar a trazer sempre comigo a sacola do mundo consciente. 
Que existe mesmo... e que ainda por cima é linda!

Para além de mais consciente do mundo à minha volta, obriguei-me a ser cada dia mais auto-consciente. Aprendi então, sobretudo nos últimos meses, que acionar a hiperconsciência de nós e do mundo à nossa volta, constitui uma oportunidade extraordinária para mudar os nossos comportamentos e para treinar a nossa capacidade de lidar com as emoções nocivas.

A região do cérebro responsável pela autoconsciência localiza-se atrás dos olhos.
 
Confesso que, no meu caso concreto, sempre fui aliás demasiado sensível a tudo o que é negativo. E demasiado reativa também. Alguns colegas de trabalho consideram-me profissionalmente muito competente, mas também um pouco agressiva! Sempre tentei ser verdadeira e sei que ao longo da vida tenho sido muito pouco transigente, a começar sempre por mim, com a desistência e a inépcia. Sei que este é um dos traços da minha personalidade e vai-me ser muito difícil agora, aos 56 anos, começar a ser, digamos, mais conciliadora e permissiva... perante o facilitismo e a incompetência.

Como tudo na vida, esta minha faceta mais dura tem também o seu reverso. Sei bem que, em contrapartida, sou uma das pessoas que conheço (e fazem-me tanta falta outras como eu!) mais entusiasta com a vida, com os bons projetos de vida e de trabalho. Ganho entusiasmo redobrado com o entusiamo dos outros e consigo facilmente entusiasmar aqueles com quem lido. Nestas situações e em diálogo, mais ainda em situações de brainstorming em grupo, torno-me numa pessoa extremamente motivada e criativa. E, desde que acredite num projeto ou me comprometa com ele, sou  totalmente determinada e (con)fiável.

Seja como for, há uns meses atrás, numa altura em que me encontrava fragilizada porque o meu filho estava bastante doente, ao tentar resolver superiormente uma situação profissional errada, fui confrontada com uma resposta de um superior, de tal modo negativa e violenta que excedeu tudo o que jamais eu esperaria assistir.

Explosão emocional.

Depois de refletir em profundidade sobre o que acontecera, decidi que este momento fora, para mim, o ponto de viragem na minha atitude profissional. A partir de agora, no contexto em que trabalho: não tencionoccontinuar a travar este combate pelo que sei que deveria ser feito e não é. Tudo o mais que me deixarem fazer e propor faço, como sempre, o melhor que posso e sei. Optei também por desenvolver, em paralelo, um trabalho de investigação profissional, o qual divulgo entre os colegas da minha área. 

Em troca, decidi dedicar as minhas energias ao meu eu interior e praticar o silêncio e o distanciamento face a energias negativas.

Os sons do silêncio, 2011

A Ziula escreveu já diversas vezes no seu blogue Hora de mudar que o exemplo conta muito mais do que todos os conselhos. Também por isso, considero que agora o meu principal trabalho é treinar-me em ouvir tranquilamente e em não comentar nada. Se me for solicitada alguma opinião, começo por sorrir ou então abano a cabeça num sinal dúbio, que tanto pode significar que concordo como que não concordo. Se tiver de falar, procuro mostrar a melhor faceta de tudo o que acontece... E, se for obrigada a pronunciar-me, digo que tenho de pensar sobre o assunto.

Deste modo, treino a não-reação a este ambiente de nervosismo e de instabilidade que nos rodeia. Sempre que me sobressalto, procuro aquietar o meu coração, do mesmo modo que tento já não saltar da cadeira como um boneco de molas todas as vez que presencio uma injustiça ou uma incompetência. Como estou hiperconsciente deste facto, reúno todas as forças para não me deixar contagiar pela perturbação emocional que nos rodeia e que funciona como um contaminação virulenta. Tendo esta hipótese de me exercitar no trabalho, alargo a aprendizagem desta minha nova forma de estar à esfera da vida pessoal.

E que tranquilo é passear nestes dias no jardim do Campo Grande, perto do meu trabalho...

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Dia 10: Ida adiada ao Centro Comercial (Shopping)


Ando há mais de duas semanas a adiar a minha ida ao centro comercial Colombo, um dos maiores da área de Lisboa. Tenho mesmo de lá ir para tratar de dois assuntos que não posso tratar noutro lado. É essa também uma das grandes atrações dos centros comerciais, independentemente de todas as estratégias mais ou menos subliminares de consumo que aplicam: reúnem também todo o tipo de lojas e serviços de que necessitamos.

Centro comercial Colombo.
Centro comercial Colombo, pormenor.

Acredito que possa demorar algumas gerações até que os habitantes do nosso planeta se apercebam do que está por detrás do consumismo. É uma questão de literacia e de sensibilidade também. E, no entanto, acredito que  é cada vez maior o número de pessoas que vive e pensa como nós, a caminho de uma vida minimalista. Um exemplo, que foi uma surpresa também para mim, é o do Center for a New American Dream não apenas pelo que fazem e divulgam, como por afirmarem que estão a redefinir o «sonho americano»...  o símbolo do coração vibrante da América e uma maiores forças intrínsecas deste povo!

Aqui, na Europa, parece-me cada vez mais evidente a vontade manifesta de viver uma vida não consumista. Em Portugal, muito também por causa da crise com certeza: com 16% de desempregados e cortes salariais na ordem dos entre 5 e 10%, as famílias têm pouco dinheiro e muito medo do futuro. Por isso talvez, mesmo com o pouco que têm muitos decidiram começar a poupar. A retração do consumo foi, de há um ano a esta parte, tão violenta que milhares e milhares de lojas de comércio e serviços fecharam umas atrás das outras, em todas as ruas e avenidas de todas as cidades e vilas portuguesas.

A crise também se fez sentir e muito nos shoppings mais pequenos que começaram a... fechar: umas quantas lojas primeiro, para arrendar, depois um corredor inteiro encerrado ao público, depois outro. Entretanto, o shopping começa a perder brilho, a ficar sujo, muitas lâmpadas fundidas não voltam a ser substituidas. Um dia passas por lá e encontras apenas um café aberto, a lavandaria e a ilha das «nails»! E então o shopping fecha. Ou vai prolongando a sua agonia no tempo, em stand by: «Aguentar-se-á?» é a pergunta que todos os frequentadores que por lá ainda deambulam fazem. Neste caso, estou a pensar concretamente no segundo centro comercial de bairro mais antigo de Lisboa, o Centro Comercial Roma, inaugurado nos anos 70.

Centro comercial Roma.
A mim, os grandes-gigantescos centros comerciais sempre me incomodaram, fisicamente, diga-se. Fosse pelo ar forçado, pelo excesso de luz artificial ou pelo ruído de fundo de todas as máquinas ali concentradas, o meu limite de permanência nunca excedeu as 2 horas. E espaçadas no tempo. Claro que fui muito ao shopping, como todos nós, e pelo menos na primeira hora com indesmentível satisfação!

Mas com o tempo comecei a sentir uma espécie de enjoo de consumo, sendo o de comprar roupa o primeiro a manifestar-se! Hoje só vou a um centro comercial obrigada e faço-o com sacrifício, tanto mais que os três ou quatro que ainda «brilham» ficam longe de minha casa, obrigam a ir de carro, a pagar estacionamento e a estar lá um tempo médio em geral superior ao meu limite. Será possível que eu seja apenas uma das poucas aves raras a quem isto aconteceu?

A ler, por adultos e crianças!

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Dia 9: Rotinas matinais programadas


Levantarmo-nos cedo deveria ser uma opção consciente de todos nós. Os estudos realizados sobre o ciclo do sono, indicam que nós, os humanos, demorámos milhares e milhares de anos a harmonizar as nossas reais necessidades de sono ao ritmo circadiano, que significa cerca de um dia (24 horas), no qual se baseia todo o ciclo biológico de qualquer outro ser vivo, influenciado pela luz solar, mas também pela conjuntura astronómica, geológica e ecológica.

Ao abandonarmos este ritmo, o que aconteceu massivamente no século XX com a generalização da luz eléctrica, começámos a dormir muito menos horas (menos de 3 a 4 horas, em média, do que no século XIX) e a dormir pior. A qualidade do sono tem-se deteriorado tanto e tão aceleradamente que está na origem de muitas doenças contemporâneas. Hoje em dia dormir bem, um sono retemperador que nos permite, como as crianças, acordar cheios de alegria de viver, é considerado um bem inestimável e um dom a preservar ao longo da vida.



Hoje em dia, todos já fomos alertados para o fato de o sol nos fornecer grande parte da nossa energia vital, para lém da famosa serotonina, o neurotransmissor da felicidade e a da dopamina, o da energia e da motivação. Daí a necessidade de banhos de sol (não confundir com bronzearmo-nos), que algumas clínicas oferecem para curar a depressão, por exemplo. Do mesmo modo, a noite escura e silenciosa, num ambiente fresco e oxigenado, é essencial a um sono reparador e rivigorante.


Lisboa ao amanhecer (vídeo).

Como tantos de nós, depois de anos e anos de noites mal dormidas e até mesmo de insónias matinais, tive de estudar e deprogramar uma boa rotina diária de vigília e sono. Primeiro, devemos ter em conta que o cérebro só desperta totalmente cerca de meia hora depois de nos levantarmos, e que até lá está só parcialmente funcional. Daí a confusão matinal que vivemos ao acordar e a necessidade de instalar um rotina que nos seja benéfica. 


Starry night, Vincent Van Gogh

Depois de diversas experiências, para mim, funciona por enquanto deste modo: em geral mais ao fim da tarde, pratico um tempo diário de respiração completa, a respiração nasal quadrada do yôga (o mesmo tempo para inspiração, retenção , expiração, retenção), depois do qual planeio o dia seguinte com tranquilidade: defino 3 tarefas profissionais e 3 tarefas da minha vida pessoal a cumprir no dia seguinte. Se tiver uma grande tarefa em mãos, ou essa vale por todas as outras ou as outras duas terão de ser mínimas. Se não conseguir fazer o planeado, pelo menos a minha nova imposição da selecionar 3 itens para deitar fora e dedicar mais 15 minutos à organização deverá ser cumprida no trabalho e em casa. Integrar estes deveres na nossa rotina diária de trabalho doméstico e profissional é simples e exequível. 

Pranayama.
No final do dia, organizo o início do dia seguinte, nomeadamente a roupa que vou vestir e os papéis que devo levar comigo e dou uma volta na cozinha. Antes de me deitar, volto a praticar a respiração completa com a maior tranquilidade possível. Depois, quase sempre já na cama, passo a fazer o balanço positivo de cada dia, ou seja, a repensar o dia que passou, tentando aprender com os erros que cometi e a valorizar o que consegui fazer. Preparo-me para dormir com um relaxamento completo (yôganidra) e procuro adormecer a visualizar o que mais gostava de conseguir num futuro relativamente próximo.

Quando o despertador toca, faço alongamentos, ou seja, espreguiço-me bem. Levanto-me devagarinho, abro a persiana e tomo um banho de sol (ou de luz) na cara de um minuto, com os olhos fechados. Faço depois uma muito breve sessão de yôga que inclui um exercício de controle da respiração (pranayama) e três posturas (assanas), em geral um alongamento, uma torsão e uma pequena invertida sobre a cabeça.


Quatro assanas.

Depois tomo o pequeno-almoço, ducho-me com o sistema das automassagens, arranjo-me, levo a minha cadelinha à rua e estou pronta para ir trabalhar. No total, demoro cerca de uma 1h00, desde que me levanto até que saio de casa. Devo confessar que ganhar balanço para esta programação de vida demora algum tempo, mas já não me imagino a viver de outro modo.


Post scriptum: Recebi hoje por email o post do blogue Be more with less: life on purpose de Courtney Carver que aborda a temática da implementação de rotinas matinais 5 minute habit stacking:mini mission. ale a pena ler, até porque nos ajuda a treinar inglês.